O BOWIE QUE CAIU NA TELA

Publicado em 01.02.2017


O Homem que Caiu na Terra, do diretor britânico Nicolas Roeg, é um dos filmes da minha vida. Originalmente lançado em 1976, travei contato com a pérola ali pelos anos 1990, primórdios da TV à cabo no Brasil, na programação do Telecine. Naqueles tempos, só havia um Telecine.

Copiei em VHS. Ainda tenho a fita comigo, surrada. Ao longo das últimas duas décadas, retornei paulatinamente ao filme, em intervalos diferentes. E ele nunca deixou de me surpreender, de me causar estranhamento. Não foi diferente agora, que o longa volta às salas de cinema, em versão restaurada, pegando carona nos 70 anos que David Bowie, seu protagonista, completaria em 2017.

A presença de Bowie foi, sem sombra de dúvida, o magneto que me colocou diante da tela para conhecer a história de Thomas Jerome Newton, o alienígena que vem à Terra em busca de água para seu planeta natal. Àquela altura, O Homem que Caiu na Terra já gozava o status de cult movie. Os registros na imprensa cultural de que o diretor havia escolhido Bowie ao ver o artista em um programa na BBC engrossavam o angu pop-mitológico. Não deu outra: chapei de primeira.

O começo do filme é belíssimo. Imagens de arquivo dão a entender a chegada de uma cápsula espacial à superfície do planeta. Logo vemos Bowie – ou melhor, Newton – descendo a encosta de um morro. De cima, é observado. Currutela americana, choque entre culturas. Visualidades desconhecidas. Venda de alianças. Um sapo no riacho, uma caneca de água fresca.

Roeg sabe o que faz. Conduz o filme com uma temporalidade que parece impossível ao cinema mainstream contemporâneo. Há espaços para imagens, contemplação, respiração. Não é para menos. Antes de pilotar seus próprios filmes, foi diretor de fotografia de trabalhos antológicos, como A Orgia da Morte, obra-prima de Roger Corman.

O dinheiro conseguido através da venda das alianças leva o personagem a um advogado especializado em patentes. Com seus avançados conhecimentos em tecnologia, em pouco tempo torna-se um recluso magnata em busca do momento em que retornará ao seu lar, aplacando a sede de sua família.

O senso de inadequação e estranheza são a tônica de O Homem que Caiu na Terra. Thomas Jerome Newton é, em todos os aspectos, um alienígena – não só em relação ao planeta Terra, mas também à sociedade e ao mundo dos negócios. Suas ligações com a humanidade se dão basicamente através da amante Mary-Lou, simplória funcionária de um hotel barato, brilhantemente vivida por Candy Clark. E pelas telas de TV.

Afastado de tudo e de todos, Thomas Jerome Newton vê o mundo através de inúmeros aparelhos de TV, simultaneamente, em uma das imagens mais poderosas do cinema. Para muitos teóricos, um marco da pós-modernidade. Para os tempos atuais, em que crianças acessam ao mesmo tempo dezenas de janelas em seus tablets e celulares, uma previsão da qual nem T. J. Newton seria capaz.

Bowie, encarnado Ziggy, se autoproclamava o meta-rock-star-filho-das-estrelas. Daí para T. J. Newton foi um pulo, ou melhor, uma volta, rumo à outra face de uma mesma moeda: o alien, sempre tão estranho a nós. E também tão próximo, pois não somos todos, em certa medida, inadequados estrangeiros?

Em uma cena ao final de O Homem que Caiu na Terra, cirurgiões acidentalmente selam sobre os olhos alienígenas de T. J. Newton as lentes de contato que o bilionário usava como disfarce humano. Para sempre. A partir dali, jamais voltaria a ver a aura das coisas. Contaminado pelo mundo dos homens – ainda que jamais possa se tornar um deles – o olhar extraterreno se perdeu.

Qualquer admirador necrófito (neófito + necrófilo, post-mortem) de David Bowie sabe que diante das câmeras o camaleão era soberano. Sua carreira de ator é extensa e repleta de atuações memoráveis. Mas foi na pele de Thomas Jerome Newton que o britânico deixou sua marca mais profunda. Talvez porque fosse impossível, ao menos 40 anos atrás, separar ator e personagem.

Hoje, às 20h, o Cine Cultura exibe a última sessão de O Homem que Caiu na Terra.

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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