O CIRCO SE FOI: MORRE TONINHO MENDES

Publicado em 20.01.2017


2017 chegou com o pé na porta. Na última quarta-feira, dia 18, partiu o lendário editor Toninho Mendes. Pena que no Brasil, na maioria das vezes, ser lendário não redunda em muita coisa. Principalmente para quem o é.

Mesmo para os coroas da minha geração, o nome Toninho Mendes não parece ser dos mais reconhecíveis. Vou facilitar as coisas: nos anos 80, ele foi o responsável, entre outros feitos, pela estrondosa Chiclete com Banana. (E se por um acaso lhe veio à mente o grupo de axé, faça um favor ao planeta: meta um balaço na própria cabeça.)

Chiclete com Banana foi a seminal revista em quadrinhos capitaneada pelo cartunista Angeli. Ali, além da reprodução das tiras de Bob Cuspe, Os Skrotinhos, Nanico e Meia-Oito, Wood & Stock e Rê Bordosa – publicadas na Folha de São Paulo e outros jornais Brasil afora –, havia outros autores, longas HQs, fotonovelas hilariantes, jornalismo udigrudi, e toda sorte de porralouquice absolutamente necessária em tempos de reabertura política. Acabávamos de sair de 20 anos de ditadura militar, tá ligado?

Naqueles idos, sem TV à cabo ou internet, a Chiclete foi um furacão não só nas histórias em quadrinhos, mas na própria cultura jovem brasileira. Sua tiragem chegou a ultrapassar os cem mil exemplares por edição. Me lembro que, no ginásio, todos os meus colegas liam assiduamente a revista. Todos. Me causa certa melancolia perceber que quem pauta a molecada de hoje são youtubers incapazes de escrever corretamente o próprio nome.

Mas a coisa não ficou só na Chiclete com Banana. Toninho lançou ainda a inesquecível revista Circo, onde foi reunido um dos mais esplendorosos escretes dos quadrinhos nacionais (Laerte, Glauco, Luiz Gê, irmãos Caruso e outros do mesmo calibre), além de publicar feras gringas do quilate de Moebius. Coisa finíssima, encontrada em qualquer banca do Brasil, ao preço de duas carteiras de cigarro .

Geraldão, Níquel Náusea, Piratas do Tietê, Big Bang Bang, Lúcifer e outras tantas publicações nasceram sob os auspícios de Toninho Mendes. Fizeram história – uma história tão gigantescamente importante que ainda não pôde ser compreendida em sua plenitude. Pistas preciosas estão distribuídas na antologia Humor Paulistano, livraço de mais de 400 páginas que sintetiza a experiência da Circo Editorial, sua mais importante chancela. Faça um favor a si mesmo e coloque o tijolo – obviamente editado por Toninho – em sua lista de leituras obrigatórias do ano.

Pouco mais de uma década atrás, tive uma noite daquelas. Animamundi, São Paulo, apaixonadaço. Première de Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock’n’Roll, longa-metragem em animação baseado nos hippies velhos, gordos e anacrônicos de Angeli, e dirigido por outra legenda da contracultura nacional, o gaúcho Otto Guerra. E eu ali, no meio deles: Otto, Angeli, Laerte… e Toninho Mendes.

Na ocasião, me lembro de ter entregado pro Toninho uma edição da Voodoo!, revista invocada que eu havia lançado com dois grandes chapas, os irmãos Xavier. O editor – que para mim mais era um herói – deu aquela folheada atenciosa, comentou algo com o Angeli. Trocaram piadas sacanas como só velhos amigos são capazes. Esbanjou simpatia. Poucas vezes me senti tão privilegiado.

Apesar do sucesso estrondoso da Circo Editorial, Toninho Mendes não ficou rico. Tampouco perdeu a ereção. Seguiu em riste, cheio de projetos até sua morte súbita, indevida, inapropriada em tempos tão conservadores. Se nos anos 80 todo mundo sabia quem eram Los 3 Amigos, hoje conta-se nos dedos quem conhece a Rê Bordosa. Caretômetro nível dez.

Mas nem tudo está perdido. Apesar das bancas de revista de hoje exalarem um cheirinho paquidérmico, os quadrinhos brasileiros vivem um momento muito especial nas livrarias. Editoras como Veneta, Zarabatana e Mino vêm fazendo um trabalho do mais alto nível com nossos craques do nanquim. Em todas elas é evidente a influência de Toninho Mendes.

Vai em paz, mestre, anarquizar outras plagas. Sentiremos falta de sua postura transgressora, intransigente, ácida. Consolo? A obra colossal que editou por aqui. Sorte a nossa.

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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