O OGRO: CINCO ANOS

Publicado em 07.10.2016


Se há um gênero que pode ser associado às histórias em quadrinhos brasileiras, este gênero, com certeza, é o terror. Tal vocação não surgiu por acaso. A onda conservadora que varreu os Estados Unidos na década de 1950, arrastada pelo senador Joseph McCarthy na esteira da guerra fria, respingou nos assustadores quadrinhos que eram então publicados por ali – e republicados no resto do mundo. Absurdamente responsabilizadas pela delinquência juvenil norte-americana, as HQs de terror foram literalmente queimadas em praça pública e o gênero virou fumaça como um vampiro diante da cruz.

Ruim para eles, bom para nós. Sem material gringo para traduzir, as editoras começaram a contratar quadrinistas brasileiros para atender a demanda que continuava a crescer. Se no princípio os quadrinhos de terror feitos no Brasil emulavam sua matriz anglo-saxã, logo eles foram desenvolvendo características tipicamente tupiniquins, como o uso de lendas populares e picantes pitadas de erotismo. Nascia então a HQ brasileira de terror, única, ímpar em relação às suas congêneres mundo afora.

14479783_1185897891455770_4434983355599844005_nDurante mais de três décadas, os leitores refestelaram-se com banhos de sangue, cangaceiros amaldiçoados, lobisomens de vilarejo, macumbeiros barra pesada e vampiras seminuas. Na criação, uma horda de gênios: Flavio Colin, Jayme Cortez, Nico Rosso, Lyrio Aragão, Julio Shimamoto… Mestres da narrativa quadrinística, dotados de traços transbordantes de originalidade e brasilidade. Não deixa de ser melancólico perceber que hoje, grande parte do público leitor de HQs praticamente desconhece os heróis deste gênero, um dia tão popular, que teve seus estertores no final dos anos 1980. As sucessivas crises econômicas e a estagnação editorial conduziram artistas de primeiríssima grandeza a um indesejável, injusto e constrangedor ostracismo.

A ideia de transformar clássicos das HQs de terror brasileiras em desenhos animados é um sonho antigo. A riqueza de traços e visões, bem como a irrefreável imaginação de nossos autores, oferecem um infinito manancial de possibilidades cinematográficas. A questão de por onde começar foi facilmente solucionada: Julio Shimamoto, o mestre Shima, foi uma escolha natural pela inquietude e diversidade de sua obra. E também por ser um dos poucos quadrinistas ainda vivos da primeira geração do terror brazuca.

Ao longo de uma carreira que já ultrapassa 50 anos, Shima se notabilizou pelo desenho dinâmico e mutante. De tempos em tempos, o samurai dos quadrinhos se reinventa lançando mão de novas e improváveis técnicas criadas por ele mesmo, tais como usar bexigas para distorcer imagens, ou desenhar por meio de raspagens em superfícies cerâmicas previamente pintadas. Se no Brasil existe o dito Cinema de Invenção, o que Julio Shimamoto faz pode e deve ser considerado o legítimo Quadrinho de Invenção.

O Ogro é uma HQ publicada em 1984 na edição 27 da saudosa revista Calafrio. Nela, desenhando com tinta branca sobre cartolina preta, Shima antecipou em uma década o que Frank Miller viria a fazer em Sin City. A atmosfera densa e a abordagem expressionista impostas pela arte de Shimamoto transformaram o roteiro de Antônio Rodrigues – que lidava com clichês de um terror gótico – em uma pequena obra-prima. A escolha da HQ a ser adaptada foi feita pelo próprio Shima, por inaugurar uma nova etapa em seu uso gráfico do claro-escuro.

Desenvolvidos roteiro e storyboard de O Ogro, deu-se início à batalha para a realização do filme. Depois de diversas negativas, o projeto venceu o Prêmio Estadual de Cinema e Vídeo de Curta Metragem do Estado de Goiás. Um gigantesco desafio norteou toda a produção de O Ogro: o traço moderno, arrojado e indócil do mestre Julio Shimamoto deveria estar presente em cada frame na tela. Imitar o inimitável não foi tarefa das mais fáceis. Mas residia aí toda a força e sentido da obra.

O Ogro não é um resgate de Julio Shimamoto. Ele não precisa. Aos 77 anos, em plena atividade, Shima está muito acima disso. O Ogro é, de fato, uma homenagem apaixonada a um artista que jamais se acomodou e a um gênero que ele ajudou a fundar. Uma homenagem ao próprio quadrinho brasileiro.

Em seus cinco anos de existência, o curta conquistou 15 prêmios (dentre eles, alguns internacionais), dezenas de festivais ao redor do mundo, exibições na TV, matérias em publicações voltadas aos quadrinhos, … Se você ainda não assistiu, é só clicar aqui: https://vimeo.com/27511624

Agora, se quiser conferir O Ogro ao ar livre, dia 22 de outubro acontece o evento Vem pro Centro, na Rua 15, esquina com a Rua 24. Temos que festejar – afinal, são cinco anos do filme e dez do Dia Internacional da Animação.

 

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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