O sertão é revolucionário e já não posso viver sem ser-tão

Publicado em 23.07.2017


Lillian Bento

“O sertão é do tamanho do mundo”. A primeira vez que li João Guimarães Rosa em seu  ‘Grande Sertão: Veredas’ eu pouco entendi sobre essa dimensão do que é ser-tão. Estava deixando a adolescência e queria mais era apagar em mim os traços sertanejos para buscar lugar na cidade grande, viver a adrenalina da falta de tempo, das aglomerações e toda a correria da dinâmica urbana. Me encantava e conseguia até enxergar poesia no acelerado correr das horas. O sertão não estava ausente, mas seguia adormecido.

De lá para cá voltei ao livro algumas vezes, mas nunca a obra de Rosa ecoou tanto em meu peito quanto agora quando o sertão volta ao protagonismo e a busca pelo tempo lento é a que me move. Escrevo agora ainda inebriada da poeira do sertão. Acabo de voltar dos Gerais de Rosa onde caminhei de Sagarana ao Grande Sertão: Veredas. Foram oito dias, 178 km de pé e um profundo mergulho no cerrado e nas culturas sertanejas. A experiência foi possível graças ao projeto ‘O Caminho do Sertão’, que selecionou pouco mais de 70 caminhantes de todo o Brasil para viver essa experiência. Para ser tão. Para ser tao.

Guiados pela obra de Guimarães Rosa e seguindo a trilha de Riobaldo partimos da Vila de Sagarana, um pequeno distrito de Arinos (MG), no Vale do Rio Urucuia, que fica a 240 km de Brasília, até o Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, no município de Chapada Gaúcha (MG). A caminhada começou com um mergulho na história de Sagarana, que nasceu da luta social e foi o segundo Assentamento da Reforma Agrária implantado pelo Incra em Minas Gerais, ainda em 1973.

A chegada a pequena vila foi eufórica. Havia todo um sertão a ser descoberto, além da empolgação de conhecer todos os caminhantes. Àquela altura entre quem já havia feito o caminho e quem estava ali pela primeira vez somávamos pouco mais de uma centena de pessoas. Todas sedentas por ser-tão.

E em meio à secura sertaneja matamos nossa sede dia a dia, passo a passo em profundas imersões nas comunidades, caminhadas contemplativas e com muita prosa em meio a tanta poesia. Foram dias intensos de amor. E o amor é assim quanto mais se ama mais se quer amar. Sigo sedenta por ser-tão e ainda sentindo em mim as vibrações desse sertão que sempre esteve aqui dentro de mim e que agora pulsa forte sem nenhuma amarra, sem travas. Sou sertão.

De tantas histórias que poderia contar sobre essa jornada  (e o farei com o correr dos dias) escolho partilhar agora sobre a hospitalidade sertaneja como uma verdadeira prática de compaixão e empatia. Difícil pensar um dia em que tais sentimentos não estivessem presentes nessa caminhada. Eles permearam toda a jornada.

Em uma das tantas noites estreladas dos dias em que passei no sertão falava sobre esse assunto com o Paraca. Almir Paraca, figura única e de tantas formas que poderia utilizar para qualificá-lo, direi apenas que é o idealizador do Caminho do Sertão. Dono de pensamentos profundos e grande conhecimento sobre Rosa e um jeito tão intenso de SER tao.  A conversa seguiu madrugada afora e eu dizia para ele do meu encantamento com esse jeito acolhedor do sertão. Sobre essa sabedoria permeada de silêncio, tao,  e o tempo, que lento nos leva a refletir sobre a vida, as escolhas e os afetos.

Essa conversa se deu na Fazenda Menino, onde vive Vó Geralda, que do alto de seus 72 anos representa de forma plena a força da mulher do sertão e essa hospitalidade que tão sabiamente o Paraca chamou de “hospitalidade extrema”.  Sem trazer para o discurso, ela revela na prática que é guiada por um forte sentimento de compaixão e empatia.

Vó Geralda mostrou estar sempre pronta a oferecer acolhida, alimento e afeto. Logo ao chegar ali ganhei dela um abraço firme e acolhedor e da mesma forma que me abriu os braços,  nos abriu a casa e o coração. Receber mais de uma centena de pessoas  em casa não tirou dela a serenidade e o sorriso do olhar. E olha que ter tanta gente em casa para tomar banho, cuidar dos pés, fazer curativos, comer e descansar poderia enlouquecer muita gente, mas não a Vó Geralda. Ela fazia questão de dizer o quanto se alegra em ver a casa cheia.

Esse mesmo sentimento encontrei na casa do Seu Domingos, que vive na comunidade quilombola Barro Vermelho. Em  uma cozinha construída no quintal com palha e bambu, ele providenciou alimento para toda aquela gente. Banho e boa prosa também não faltou. Seu Domingos, assim como vó Geralda, me contou o quanto gosta da casa cheia. “Quanto mais cês vem aqui, mais eu gosto”, disse ao me dar um abraço que começou tímido e ganhou espaço unindo nossos corações.

O mesmo se deu em uma das paradas que fizemos durante a caminhada: na casa do Tico, trabalhador do campo, ‘agrofloresteiro’ e um dos guias d’O Caminho do Sertão’. Ele nos recebeu para contar sobre sua experiência com o Sistema Agroflorestal. Entre tantas boas acolhidas conhecemos Tico, Paulo, Damiana, Lana, Célio, Seu Argemiro, Seu Berg e tantas outras pessoas de coração aberto para acolher. De uma hospitalidade extrema que muito me ensinou.

Me ensinou que eu estava ali para ouvir. Para praticar a compaixão como um sentimento capaz de nos conduzir a um exercício de se colocar no lugar do outro, de buscar compreender o olhar desse outro para reaprender a olhar. E reaprender a olhar foi para mim um exercício de me desligar de minhas próprias angústias, minhas formas já viciadas de ver o mundo e me ligar às verdades alheias. Um exercício intenso e profundo que ainda não consigo expressar em palavras, quiçá um dia conseguirei.

Agora isso não importa. Importa que, ao final da caminhada, entendi o que Guimarães Rosa queria dizer ao escrever que “ninguém atravessa essa paisagem impunemente. Ao final revela-se e apura-se que o sertão está dentro da gente.” E foi assim, vivendo o sertão e mergulhando nessas comunidades tradicionais que o integram que reencontrei esse sertão dentro de mim. Esse sertão que sempre esteve aqui e que resiste. Esse sertão dos Gerais que guarda tantas histórias de luta e resistência e que me instiga a entender o que é ser tão. Que me silencia e me leva a ser TAO.

Sigo inebriada por essa poeira do sertão que desejo não saia jamais de minha pele e de meus cabelos. O fim do caminho foi o início de uma nova travessia. Sigo com a certeza que já não posso mais viver sem serTÃO.

 

Fotos e texto: Lillian Bento

Para saber mais

Facebook: O Caminho do Sertão

Site: O Caminho do Sertão

Instagram: @caminhodosertao

Tico mostra maracujá produzido em Sistema Agroflorestal.

Caminhantes em travessia de vereda. À frente BGG da Mata Virgem, que veio de Uauá na Bahia para caminhar no sertão dos Gerais.

Cada paisagem é uma poesia quando se caminha no sertão.

Momento cultural no Parque Nacional Grande Sertão: Veredas, na cidade de Chapada Gaúcha (MG).

 

 

 

 



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