Os demônios de Chris Cornell

Publicado em 19.05.2017


“O Brasil pegando fogo e você falando de roqueirinho?”. Sim, é isso mesmo. Pode continuar navegando por aí caso não se interesse pelo assunto. Vivemos (ainda não sabemos até quando, sempre é bom ressaltar) em uma democracia e você é livre para seguir adiante. Aproveite enquanto isso ainda lhe é permitido.

Com o incandescente momento político tupiniquim, reverberou pouco por aqui a morte de Chirs Cornell. E é importante destacar a relevante trajetória do artista.

Costumo dizer que são quatro os pilares fundamentais que sustentam a chamada cena de Seattle que abalou a indústria musical nos anos 1990: Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden. É claro que tínhamos um Mudhoney aqui, um Screaming Trees acolá, mas eram essas quatro bandas que ganharam maior visibilidade pelos injustos e nem sempre explicáveis critérios da indústria cultural.

Cornell era o frontman do Soundgarden. Também esteve à frente do cultuado Temple of the Dog, do bombado Audioslave e manteve carreira solo de algum destaque. Mas é inegável que foi no Soundgarden que apareceu realmente para o mundo.

Foi no início dos anos 1990 que tive contato pela primeira vez com a banda. Diferente de Nirvana e Pearl Jam que tiveram suas músicas tocadas por rádios goianienses no período, o Soundgarden ficou mais distante da nossa realidade. Na terra do pequi, não teve um sucesso radiofônico. Nem mesmo Black Hole Sun frequentou o dial de Goiânia.

Conheci o Soundgarden lendo a Bizz e vendo clipes na MTV. E o da balada que citei acima foi inegavelmente o mais impactante para mim naquele momento. Uma música sofrida, lenta, pesada e com o clipe de cores berrantes remetendo ao ácido lisérgico impressionaram esse então adolescente que lhe escreve agora.

Um amigo tinha o disco Badmotorfinger e o ouvíamos ocasionalmente. Nunca rodou com muita frequência. Nem sequer gravei uma fita desse álbum. Preciso ser sincero, da cena de Seattle foi Nirvana e Alice in Chains as bandas que mais me marcaram. Pearl Jam vem em terceiro lugar. E um amigo me atentou para um mórbido detalhe: o único frontman que ainda vive das quatro é Eddie Vedder. Dado curioso e triste.

Poucos anos depois, namorei uma garota que era fã da banda. Evidentemente que, além do som, a postura galã roqueira de Cornell favorecia sua idolatria à banda. Ela tinha o recém-lançado Down on the Upside e sempre ouvíamos quando passávamos a tarde na casa dela ou na minha. Acabou que foi esse disco o que mais ouvi de toda carreira do cantor.

Quando o Soundgarden acabou, a carreira solo de Cornell teve uma pegada mais pop que me repeliu um pouco. A mesma coisa aconteceu com Audioslave: acredito que o supergrupo tem um trabalho inferior ao das duas bandas que a geraram, Rage Against the Machine e Soundgarden.

É impressionante que em todos trabalhos de Cornell a dor seja uma marca tão destacável. Sua música é sofrida, suas composições são enclausurantes, sua interpretação tem entrega. Mesmo com essa carga sentimental tão explícita, o suicídio pegou todos de surpresa.

Quem consegue dimensionar a dor do outro? Impossível. Olhando de fora, Cornell tinha a vida de sonho de milhões de adolescentes mundo afora. Bem sucedido, líder de bandas conceituadas, shows com ingresso esgotado, respeitabilidade artística. Nada disso foi capaz de amenizar sua dor. Uma pena.

Que Chris Cornell descanse em paz.

Pablo Kossa 
Jornalista, produtor cultural e mestre em comunicação pela UFG
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Jornalista, produtor cultural e mestre em comunicação pela UFG - textos novos terças e sextas
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