Reedição

Publicado em 21.07.2017


Estava transitando pela capital federal quando uma notícia me chamou a atenção. Uma meliante tinha sido presa por aplicar golpes. Nada incomum se não fosse os métodos utilizados pela moça. A simpatia e a beleza. E, para variar, a cidadã tinha fugido de Goiás por ser procurada e aplicava os mesmos golpes em Brasília. Lembrei-me de imediato de uma crônica escrita em 2015 que faz referência a outra crônica de 2005. As vezes tenho a impressão que caminhamos em círculo.

Segue a(s) crônica(a).

A ave e a Barbie

Quando li essa semana a notícia do caso da bela moça que aplicava golpes pela internet bateu-me uma imensa vergonha alheia. Para os que não estão cientes explico em poucas palavras. Trata-se da prisão de uma gatuna que aplicava golpes de venda de celulares e outros pela internet. Nada de novo não se tratasse de uma meliante acima da média de beleza das mulheres brasileiras e que se utilizava desse artifício para facilitar a atuação danosa. Não que as belas estejam incólumes ao mal feito e que a culpa seja sempre das feias. Até apelido a moçoila tinha. Barbie. Não quero aqui me ater aos detalhes dos delitos, mas a vergonha que senti expressa no começo do texto. Mania que nós goianos temos de levar golpes sô! Parece que fazem fila para ludibriar os pobres habitantes do Planalto Central. Aí de imediato lembrei-me de uma crônica escrita no final do ano de 2005 que versava sobre o golpe do avestruz e tinha o título “Ave struz cheia de graça”. Resolvi transcreve-la para que os leitores possam tirar suas próprias conclusões:

“Há alguns meses (quase ano) atrás, chegou um empresário Português da cidade do Porto a nossa cidade e levei-o para almoçar e conversar sobre os negócios da terra. Ele, observando a dinâmica da arquitetura, notou o avestruz. Questionou-me então se aquele negócio havia chegado ao Brasil, e eu mais que prontamente respondi que era o negócio da moda. Ele mais prontamente ainda me informou que o mesmo negócio tinha aportado em terras Lusitanas, anos atrás, e tinha deixado rastro de quebradeira. Mudamos de assunto, mas um questionamento dele ficou em minha mente: Raciocina comigo. Quem no mundo come avestruz? Aqui no Brasil se come esta ave? Então para quem eles vão vender? Ainda mais a um preço exorbitante… mas como eu não havia investido, pouco interesse tinha na conversa. Passamos a conversar sobre vinho do Porto, assunto bem mais interessante.

Hoje vendo todo este caos em torno da inofensiva ave, lembro-me do conterrâneo português, que aquela época já nos informava da barbárie do negócio. Também não posso deixar, de como sempre, analisar a influência do lusitanismo português, sempre no sentido sarcástico e nunca ofensivo, na formação do povo brasileiro. Porque será que este negócio da China (nem sei se chinês come avestruz) conseguiu terras férteis logo em países coirmãos? E logo em países descendentes de Camões? Algo há! Será que nas raízes da cultura portuguesa a “ingenuidade” e a propensão ao fácil são mais arraigadas? Enquanto escrevo esta crônica escuto “Pecado Capital” na voz de Paulinho da Viola e, por uma coincidência de fatos, a música é o retrato do malandro brasileiro a procura do dinheiro fácil. “Dinheiro na mão é vendaval, na vida de um sonhador… “. Aí podemos entender que a ingenuidade do português se associou a malevolência do negro africano e a “pouca vontade” de trabalhar do índio Tupi-Guarani e tudo se misturou no caldeirão da miscigenação surgindo a alegria do brasileiro, e é claro, a malandragem. Para ter certeza desta teoria aguardemos os próximos países na rota do avestruz. Caso seja Timor Leste, Angola e Macau… bingo!

Não querendo ser precursor do Apocalipse nem aproveitador da desgraça já ocorrida, mas eu bem que avisei! Também não tenho certeza se dei meu alerta por convicção do imbróglio em que se metiam os investidores ou porque tinha inveja da coragem que tinham de arriscar em causa tão perdida, e faturar unzinho na maciota. Mas ao final prevaleceu a lógica, porque esta é uma lei inexorável da natureza. Por alguns instantes pode parecer que as coisas se portam ilogicamente, mas ao final tudo tende ao equilíbrio. Lei Natural. E aos meus conterrâneos, especificamente, um aviso com cara de puxão de orelha: deixemos de nos portar como os bugres que viviam nos Goyazes que se impressionavam com os bandeirantes paulistas que ateavam fogo em cachaça se fazendo passar por Deuses que colocavam fogo em água. Deixemos de endeusar forasteiros que chegam em Ferraris gastando mundos e fundos, dando festas de arromba, e levando vida de marajás às nossas custas. Esta época em que nós, índios, éramos enganados pelo Anhanguera já passou. Raciocinemos que rendimentos de 11% ao mês nem prostituição e drogas, só mesmo a venda do Eldorado aos incautos.

Ao fim uma palavra de esperança aos que compraram o sonho de se tornarem ricos sendo cowboys de avestruzes. Boa sorte. É o que resta. Ao fim de toda lógica violada só resta a sorte, de que as aves sejam em número suficiente para serem distribuídas irmanamente. E o que fazer com elas? Sinceramente não tenho esta resposta. Só uma ideia. Ao invés de peru este fim de ano porque não… Avestruz?”

Quem compartilha da minha vergonha (mais uma vez) ponha o dedo aqui.

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Guilherme Santana

Guilherme Santana

Engenheiro por formação e Coveiro de coração
Pai com paixão e Observador de precisão
Pensador por convicção e Cronista de ocasião
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