Rock rural de Sá e Guarabyra ainda emociona

Publicado em 07.07.2017


Na última terça-feira, fui ao Teatro Santa Madre Garrido no Santo Agostinho assistir ao show de Sá e Guarabyra. Saí de lá pisando em nuvens. Impossível não ficar emocionado com um repertório que faz parte da minha formação e memória afetiva.

“E no ABC do Santeiro o que diz o A, o que diz o A?”

Fomos eu, esposa e filha caçula. Marcado para 20h30, chegamos com meia hora de antecedência e uma fila razoável já estava formada. Tudo muito bem organizado no evento que faz parte da 4ª edição do Sesc Aldeia Diabo Velho. Ponto para o pessoal da produção.

O espaço estava com lotação quase completa. Talvez até estivesse inteiramente tomado, mas não posso afirmar. A parte inferior do teatro estava sem espaços vazios, mas não sei como era a situação da plateia superior. Fica aqui meu mea-culpa por essa informação capenga.

Com poucos minutos de atraso, nada que incomodasse, a dupla subiu ao palco acompanhada do baixista Pedrão Baldanza que ficava responsável também pelos vocais de apoio. A apresentação começou com uma das músicas mais marcantes do repertório da dupla quando ainda era trio (acompanhados pelo eterno Zé Rodrix), a Primeira Canção da Estrada.

“Eu tinha apenas 17 anos no dia em que saí de casa”.

A equalização do som não estava feita e só foi corrigida ao longo da música. A falha técnica não prejudicou nada por conta da força da presença dos artistas e o fator emoção que essa letra promove. Quem não deixou a segurança do lar em busca de uma aventura na estrada quando adolescente que atire a primeira pedra (e se nunca fez isso, que bela juventude de merda você teve, hein?). O já clássico medley com Pó da Estrada foi feito. Acredito que parcela significativa do público da dupla não saiba que se tratam de duas canções distintas que se unem pela temática e nas interpretações ao vivo.

“O pó da estrada brilha em meus olhos”.

Foi a terceira vez que assisti Sá e Guarabyra. A primeira foi absolutamente frustrante. Zé Rodrix ainda era vivo. Eles se apresentaram no Flamboyant in Concert quando os shows eram na parte interna do shopping. Não havia o menor clima e ambiência para admirar a sutileza dos arranjos vocais, melodias e harmonias com aquelas luzes kitsch e público circulando com sacolas nas mãos. Valeu por ter sido a única vez que vi Rodrix no palco.

A vez seguinte compensou com larga folga a frustração da experiência anterior. Aconteceu no Fica de 2013, na Cidade de Goiás. O vínculo temático e emocional da obra de Sá e Guarabyra com o espaço da velha capital foram determinantes pelo clima de comoção coletiva que tomou conta do espaço. Foi um daqueles momentos para se guardar eternamente na memória.

Voltando ao show da última terça-feira, os grandes hits da dupla tiveram privilégio na escolha do repertório. Do cancioneiro do trio, somente a tocante Me Faça um Favor, além da já citada que abre o show, foi executada. Um ou outro lado B entrou no repertório. Mas o grosso foi de músicas que estão na ponta da língua do público, já que a dupla tem uma invejável coleção de hits. Roque Santeiro, Caçador de Mim, Dona, Espanhola, Marimbondo, Verdades e Mentiras, Cheiro Mineiro de Flor…

“Cante uma canção que fale de amor que seja bem fácil de se guardar”.

A envolvente história que antecede Cinamomo (música do incrível álbum Pirão de Peixe com Pimenta que completa 40 anos de lançamento em 2017) é de um humor peculiar. No refrão, o teatro explode.

“Te conheci de cara pro sol, de cara pro sol”.

Ao fim, antes do bis, a letra infelizmente ainda pertinente de Sobradinho (e um tanto quanto profética, vide a transposição do Rio São Francisco) levantou a plateia para a despedida da dupla. Show impecável, felicidade sincera no coração.

“Adeus Remanso, Casa Nova, Santo-Sé, Pilão Arcado, Sobradinho, adeus, adeus…”.

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Pablo Kossa

Jornalista, produtor cultural e mestre em comunicação pela UFG - textos novos terças e sextas
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