VELOCIDADE, GRAFFITI E JOÃO DÓRIA

Publicado em 26.01.2017


Diminuir o ritmo, tirar o pé do acelerador. Não consegui sistematizar muito bem minhas resoluções de ano novo, mas essa aí está clara e cristalina como anseio para 2017.

Nada como boas férias para sentirmos o nível de loucura que o cotidiano nos impõe. Nessa virada de ano, tive umas bem legais, com direito a sossego e tudo mais. Foram longas. Senti saudades de casa. Cheguei há menos de uma semana e já virei duas noites trabalhando. Mas ainda não desisti de uma toada mais relax neste ano de nosso Senhor.

Todo mundo que eu conheço, sem exceções, trabalha e corre feito doido. Todo mundo. A quem serve a velocidade a que estamos submetidos? Não vejo as pessoas mais felizes no olho desse furacão – mesmo aquelas que, como eu, só trabalham com o que lhes dá prazer e realização pessoal.

Não sei quanto a você, mas eu não tenho dúvidas: essa velocidade toda só serve ao capital. E não é na minha conta que ele está se acumulando – tampouco na sua, sejamos sinceros.

Por isso o graffiti é tão transgressor e perigoso: nas grandes cidades, ele interrompe o fluxo contínuo rumo ao acúmulo do capital para nossos mega-meta-patrões.

Nos centros das metrópoles, as baratas estão ali, travestidas de humanos, trombando umas nas outras para não perder o horário, o trampo, a reunião, o banco, o deal, o job, o status, o prato de comida, o novo e sonhado celular turbinado. Aí vem aquele paredão ultracolorido e PUF!!!… abre-se um portal para outra dimensão.

Por um instante que seja, o graffiti arranca o sujeito de sua corrida sem fim e o desloca rumo a uma outra esfera, potencialmente estética. Naquele momento, a engrenagem do capital se afrouxa e o trabalhador tresloucado se conecta com a cidade. O patrão vai ter que esperar, mesmo que só um pouquinho. E eu vou contemplar essa “arte” das ruas, feita por alguém que se apropriou da cidade, para que eu pudesse ter essa experiência única. E se a cidade é dele, passa a ser minha também.

Essa dupla operação – romper o fluxo desenfreado do acúmulo do capital e oferecer uma perspectiva de ocupação e apropriação das cidades – transforma o graffiti em algo revolucionário por natureza. E nada mais natural que um pulha como o prefeito de São Paulo, o Sr. João Dória, tome a decisão de “limpar” e “higienizar” a cidade, cobrindo toda os murais da metrópole com um deprimente e monocromático cinza. Não poderíamos esperar algo diferente de um político que usa camisa pólo Lacoste…

O problema se agrava quando pensamos que o graffiti há muito superou o espaço da resistência e do enfrentamento. Minha mãe gosta de ver os muros pintados em Goiânia – e isso é um sinal inequívoco que esta manifestação encontra resguardo no seio da sociedade. Só se incomoda com o graffiti a perua encastelada, madama do sistema das artes, incapaz de admitir que a mesma secretária que lava suas panelas possa de alguma forma ter alguma fruição de ordem estética. E mesmo nesses casos, ao menor reconhecimento do tal sistema das artes, lá vai a perua pendurar na sala uma tela pintada por graffiteiro.

A lógica do PSDBista em apagar os murais em Sampa é a mesma de empurrar a Virada Cultural para Interlagos. “Que papo é esse dessa gentalha querer cultura, diversão, direitos? Mais um pouco e vão pensar que a cidade é deles!” Consigo imaginá-lo proferindo este discurso, no meio de um faniquito vexaminoso, enquanto pensa na próxima pantomima grotesca – afinal, é pura ilusão acreditarmos que o sujeito vai parar na cadeira de rodas.

As visualidades graffitadas em São Paulo são, antes de mais nada, um patrimônio cultural. Como alguém chamou a atenção nas redes sociais, o que o Dória está fazendo é algo equivalente à queima de livros em praça pública. Coisa de cidadãos de bem.

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Márcio Júnior

Produtor cultural, Mestre em Comunicação pela UnB e doutorando em Arte e Cultura Visual pela UFG - textos novos todas as sextas
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